Macau Português: Quatro Séculos de Portugal na China
Durante mais de quatrocentos anos, Macau foi o ponto de encontro entre Portugal e a China. Os azulejos, as igrejas, os nomes das ruas e a comida continuam lá, e a viagem desde Lisboa é mais simples do que parece.
De pé no cimo da escadaria em frente às Ruínas de São Paulo, olha-se para uma fachada sem igreja por trás. Um incêndio em 1835 levou o resto. O que ficou é um muro de pedra lavrada onde a iconografia católica divide espaço com crisântemos, um leão chinês e uma inscrição em caracteres japoneses, talhados por artesãos de três culturas na mesma obra. Esse muro explica Macau melhor do que qualquer cronologia.
Os mercadores portugueses chegaram à península na década de 1550 e fixaram-se a partir de 1557, pagando foro às autoridades Ming em troca de uma base para negociar seda e prata entre Cantão, Nagasáqui, Malaca e Goa. Macau nunca foi conquistada. Foi negociada, vezes sem conta, durante quatrocentos e quarenta e dois anos, e é essa natureza negociada que dá à cidade um ar de camadas sobrepostas em vez de imposição. Hoje Macau é uma Região Administrativa Especial no âmbito do princípio 'um país, dois sistemas', que mantém o português como língua oficial, protege o núcleo histórico e preserva o seu próprio sistema jurídico, economia e um elevado grau de autonomia.
Esse núcleo é Património Mundial da UNESCO desde 2005. É um percurso a pé de cerca de um quilómetro e meio entre largos, igrejas e templos: o Largo do Senado com a calçada portuguesa em ondas, o amarelo da Igreja de São Domingos, a Santa Casa da Misericórdia fundada em 1569 à imagem da de Lisboa, o Quartel dos Mouros, a Casa do Mandarim, a Fortaleza da Guia com o farol mais antigo da costa da China e o Templo de A-Má, anterior à presença portuguesa e origem do nome da cidade. Os marinheiros perguntaram como se chamava aquilo, ouviram A-Má-Gau, a baía de A-Má, e escreveram Macau.
O legado mais persistente não é o construído, é o da mesa. A cozinha macaense é uma das poucas cozinhas de fusão verdadeiramente antigas do mundo, feita ao longo de gerações por famílias de raiz portuguesa, chinesa, malaia, indiana e africana. O minchi, carne picada com batata, soja e ovo estrelado, é o prato de casa. A galinha à africana, grelhada em molho de coco e malagueta, é uma invenção de Macau que não existe em África. O tacho é um guisado de inverno que se lê como um cozido reescrito com chouriço chinês. E o pastel de nata que hoje se vende por toda a Ásia descende da versão macaense, adaptada nos anos oitenta e depois copiada em todo o lado.
A língua conta uma história mais discreta. O português é oficial e obrigatório na sinalização, por isso as ruas continuam a chamar-se Rua da Felicidade e Avenida da Praia Grande, mas o dia a dia faz-se no dialecto chinês local. O patuá, o crioulo macaense que misturava português com malaio, chinês e cingalês, é hoje falado com fluência por pouquíssimas pessoas e sobrevive sobretudo através de um grupo de teatro anual e do registo de línguas ameaçadas da UNESCO. As escolas portuguesas e a faculdade de direito da Universidade de Macau mantêm a língua escrita viva por uma razão prática: Macau é a ponte da China para os mercados lusófonos e o Fórum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Portuguesa funciona ali desde 2003.
Visitar é simples. Não há voo direto de Lisboa, pelo que a maioria dos viajantes liga por Dubai, Doha ou Hong Kong, e de Hong Kong chega-se a Macau numa hora de ferry ou quarenta minutos de autocarro pela ponte sobre o mar. Quem tem passaporte português entra sem visto. Dois ou três dias chegam para o centro histórico, para a vila mais calma da Taipa com as casas coloniais da Rua do Cunha e para Coloane, onde a padaria original ainda vende os pastéis que deram início a tudo.
Se este fio da história lhe interessa, ele sai diretamente da mesma expansão marítima que abriu o caminho marítimo para a Índia e a língua hoje partilhada pelos países africanos de língua portuguesa. Em Portugal, os museus e monumentos de Belém, vários deles na lista das sete maravilhas de Portugal, são o ponto de partida da história de Macau.
FAQ
- Macau ainda é português?
- Sim, como região autónoma. O português continua a ser língua oficial ao lado do chinês, Macau mantém o seu próprio sistema jurídico, economia e um elevado grau de autonomia, e grande parte do património construído está protegida.
- Durante quanto tempo Macau foi português?
- Os portugueses fixaram-se ali a partir de 1557 e o território esteve sob administração portuguesa até 1999, o que faz dele o mais duradouro estabelecimento europeu no Extremo Oriente.
- O que visitar primeiro?
- As Ruínas de São Paulo, o Largo do Senado, o Templo de A-Má e a Fortaleza da Guia com o seu farol. Estão todos no Centro Histórico de Macau, Património Mundial da UNESCO desde 2005.
- Ainda se fala português em Macau?
- É língua oficial e aparece em todas as placas de rua e documentos oficiais, mas o dia a dia faz-se no dialecto chinês local. Alguns milhares de pessoas falam português em casa e o antigo crioulo macaense, o patuá, é hoje muito raro.
- O que é a cozinha macaense?
- Uma cozinha de fusão nascida em Macau: técnica portuguesa com ingredientes chineses, indianos, malaios e africanos. Procure o minchi, a galinha à africana, o tacho e os pastéis de nata macaenses.
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